{"id":1229,"date":"2013-05-06T13:57:12","date_gmt":"2013-05-06T13:57:12","guid":{"rendered":"http:\/\/josemariacastillejo.com\/?p=1229"},"modified":"2013-05-10T11:34:59","modified_gmt":"2013-05-10T11:34:59","slug":"economia-real-y-economia-financiera","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/josemariacastillejo.com\/pt\/blog\/2013\/05\/06\/economia-real-y-economia-financiera\/","title":{"rendered":"Economia real e economia financeira"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 algumas semanas almocei com um amigo que vejo regularmente. Fiquei impressionado com um coment\u00e1rio que ele fez enquanto fal\u00e1vamos sobre as suas estrat\u00e9gias de investimento. Ele disse: \"<i>Ou a situa\u00e7\u00e3o muda rapidamente ou os problemas da economia, e da Europa em geral, come\u00e7ar\u00e3o a complicar-se cada vez mais. H\u00e1 v\u00e1rios anos que me dedico exclusivamente \u00e0 economia financeira, <strong>n\u00e3o querer saber nada sobre a economia real<\/strong> e eu tenho-me sa\u00eddo muito bem. Ainda bem que n\u00e3o investi na economia real. Mas estou a come\u00e7ar a preocupar-me... N\u00e3o \u00e9 assim que deve ser!<\/i>\"<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/josemariacastillejo.com\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/comentario_76.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-1032\" alt=\"comentario_76\" src=\"http:\/\/josemariacastillejo.com\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/comentario_76-300x200.jpg\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/josemariacastillejo.com\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/comentario_76-300x200.jpg 300w, https:\/\/josemariacastillejo.com\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/comentario_76.jpg 450w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>J\u00e1 passaram mais de cinco anos desde o in\u00edcio desta crise e as coisas n\u00e3o parecem estar a melhorar muito desde ent\u00e3o. Estamos agora em maio de 2013. Em setembro, ter\u00e3o passado seis anos desde o colapso do Lehman Brothers. Durante muito tempo, os pol\u00edticos da Europa estiveram em nega\u00e7\u00e3o. N\u00e3o posso esquecer os coment\u00e1rios de <a href=\"http:\/\/es.wikipedia.org\/wiki\/Jean-Claude_Trichet\">Jean Claude Trichet<\/a> quando era presidente do Banco Central Europeu: aumentava as taxas de juro e falava da sua preocupa\u00e7\u00e3o com a infla\u00e7\u00e3o, quando a economia real estava completamente parada h\u00e1 meses e meses. O problema que est\u00e1vamos a sentir na rua era a falta de procura e a falta de acesso ao cr\u00e9dito para financiar o fundo de maneio das nossas empresas. Os problemas dos bancos ainda n\u00e3o eram evidentes. Mas o Presidente do <a title=\"Banco Central Europeu\" href=\"http:\/\/www.ecb.int\/ecb\/html\/index.es.html\" target=\"_blank\">BCE<\/a> insistiram em falar do perigo da infla\u00e7\u00e3o e viram a realidade oposta \u00e0quela que n\u00f3s, na economia real, e n\u00e3o na economia financeira, vimos. A falta de procura est\u00e1 a aumentar e os bancos continuam a n\u00e3o conseguir ou a n\u00e3o querer conceder cr\u00e9dito para manter a economia a fluir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parece-me que estamos a viver em Espanha uma s\u00e9rie de acontecimentos que t\u00eam enormes semelhan\u00e7as com o mundo que os franceses conheceram no final do s\u00e9culo XVIII. Uma classe dominante, a classe pol\u00edtica, completamente desligada da realidade, muito semelhante, no seu poder, \u00e0s classes altas da Idade M\u00e9dia; uma cidadania com problemas crescentes para encontrar um sentido para o seu futuro, a classe m\u00e9dia, que \u00e9 cada vez menos existente porque foi empobrecida e privada do acesso a empregos e a meios de financiamento dos quais dependeu durante anos e, finalmente, uma popula\u00e7\u00e3o rural muito alienada da realidade do resto do pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As principais diferen\u00e7as em rela\u00e7\u00e3o ao s\u00e9culo XVIII franc\u00eas s\u00e3o, a meu ver, duas. Uma tem um impacto positivo na nossa situa\u00e7\u00e3o atual e a outra, pelo contr\u00e1rio, tem um impacto negativo. A parte positiva \u00e9 que, no caso das pessoas que vivem no campo e do campo, a sua situa\u00e7\u00e3o melhorou consideravelmente em compara\u00e7\u00e3o com a situa\u00e7\u00e3o em que viviam em 1783. Na Europa, durante dezenas de anos, os diferentes governos que se sucederam preocuparam-se em subsidiar os neg\u00f3cios relacionados com o campo, ao ponto de ser mesmo muito lucrativo semear e depois n\u00e3o colher. Ou simplesmente deixar a terra est\u00e9ril. Estou a falar deste grupo dos que t\u00eam terra, e n\u00e3o dos assalariados rurais, que hoje seriam classificados como cidad\u00e3os: vivem no campo, mas s\u00e3o completamente equivalentes aos cidad\u00e3os que vivem do seu sal\u00e1rio nas cidades. T\u00eam, relativamente aos que vivem nas cidades, sal\u00e1rios normalmente mais baixos, mas custos muito mais baixos e a capacidade de encontrar formas alternativas de abastecimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como aspeto negativo, a popula\u00e7\u00e3o de cidad\u00e3os \u00e9 hoje infinitamente maior do que em Fran\u00e7a no final do s\u00e9culo XVIII.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais uma vez, duzentos anos depois, a hist\u00f3ria parece estar a repetir-se. E, j\u00e1 agora, algo de semelhante tamb\u00e9m aconteceu quando o Imp\u00e9rio Romano come\u00e7ou a desmoronar-se.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o quero ser um tremendista, nem um negativista. Mas, na realidade, 6 milh\u00f5es de desempregados s\u00e3o muitas fam\u00edlias sem um rendimento regular e, acima de tudo, muitas fam\u00edlias sem esperan\u00e7a. Muitos jovens sem futuro, muitos adultos sem capacidade de encontrar solu\u00e7\u00f5es para as suas fam\u00edlias, perdendo empregos, casas, investimentos e as suas pr\u00f3prias fam\u00edlias, e muitos reformados com um futuro realmente complicado quando chegar o ocaso da sua vida. E o que \u00e9 ainda pior, um sistema em que confi\u00e1mos, provavelmente em demasia, que n\u00e3o funciona e que n\u00e3o parece ter quaisquer sinais de funcionar num futuro pr\u00f3ximo. E quando digo futuro pr\u00f3ximo, refiro-me a daqui a dez ou quinze anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para os jovens, existe a possibilidade de ir para o estrangeiro para procurar um futuro noutros pa\u00edses. Os melhores j\u00e1 o est\u00e3o a fazer ou j\u00e1 o fizeram. Muitos deles nunca mais voltar\u00e3o. Talvez regressem para passar alguns Natais ou uma semana de f\u00e9rias, para que os seus descendentes possam conhecer as suas antigas ra\u00edzes. De facto, \u00e9 o que est\u00e1 a acontecer agora com muitos dos que tiveram de sair de Espanha na primeira metade do s\u00e9culo XX, e que agora regressam enriquecidos e com algumas das suas poupan\u00e7as em activos espanh\u00f3is. O nosso governo aplica um eufemismo a este drama nacional. Fala-se de \"<strong><em>mobilidade externa<\/em><\/strong>\" e \"<em><strong>troca<\/strong><\/em>\"porque alguns estudantes tamb\u00e9m v\u00eam para Espanha. A realidade \u00e9 que os que s\u00e3o mobilizados do nosso lado s\u00e3o profissionais formados, com elevadas capacidades, que nunca ou quase nunca regressar\u00e3o, e os que v\u00eam em \"interc\u00e2mbio\" fazem-no para passar alguns meses e aprender uma l\u00edngua que se tornou a mais falada no mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 isto que acontece na economia real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que est\u00e1 a acontecer na economia financeira? Tudo parece estar a correr bem. Wall Street est\u00e1 novamente em m\u00e1ximos hist\u00f3ricos e o dinheiro parece estar a fluir. As taxas de juro baixaram para 0,5% - algo que n\u00f3s, cidad\u00e3os, nunca saberemos -; os leil\u00f5es de bilhetes do Tesouro s\u00e3o mais baratos - no entanto, n\u00f3s, cidad\u00e3os, continuamos a n\u00e3o conseguir obter cr\u00e9dito e tamb\u00e9m n\u00e3o conseguimos refinanciar o que temos -; fala-se de toneladas de dinheiro nos balan\u00e7os dos bancos e das grandes empresas - e n\u00f3s, cidad\u00e3os, n\u00e3o conseguimos refinanciar o que temos; fala-se de toneladas de dinheiro nos balan\u00e7os dos bancos e das grandes empresas -e n\u00f3s, cidad\u00e3os, n\u00e3o sabemos onde vamos encontrar o dinheiro para pagar as nossas despesas no pr\u00f3ximo m\u00eas-; o PIB est\u00e1 a cair 1% -enquanto as nossas empresas ou os nossos rendimentos est\u00e3o a cair a uma taxa de mais de 50%, se \u00e9 que n\u00e3o desapareceram completamente-; dizem-nos que a recupera\u00e7\u00e3o vir\u00e1 em 2014, como nos disseram antes em 2013, e tamb\u00e9m em 2012... -para uma grande parte dos cidad\u00e3os, n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o se prev\u00ea qualquer recupera\u00e7\u00e3o, como a quest\u00e3o \u00e9 saber se seremos capazes de construir um futuro com o que nos resta e como conseguiremos sobreviver nos pr\u00f3ximos anos-; dizem-nos que v\u00e3o melhorar as leis de apoio aos pequenos empres\u00e1rios, mas h\u00e1 mais de quatro anos que ouvimos falar disso e nada aconteceu...<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E assim pod\u00edamos escrever, escrever e escrever e escrever....<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 o que acontece na economia financeira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estou convencido de que os pol\u00edticos que nos governam atualmente tamb\u00e9m est\u00e3o verdadeiramente preocupados e tentam encontrar solu\u00e7\u00f5es para as incr\u00edveis barbaridades que t\u00eam vindo a acontecer h\u00e1 anos. Mas tamb\u00e9m estou convencido de que est\u00e3o assustados e que, em muitas das decis\u00f5es que deveriam tomar, est\u00e3o bloqueados. Li a resposta da senhora deputada Santamar\u00eda \u00e0 senhora deputada Aguirre quando esta apelou \u00e0 a\u00e7\u00e3o e aos cortes na despesa p\u00fablica. A senhora deputada Santamar\u00eda disse-lhe que, nos \u00faltimos anos, tinham cortado mais de 300 000 postos de trabalho na Administra\u00e7\u00e3o e tinham conseguido reduzir o n\u00famero de funcion\u00e1rios p\u00fablicos para o n\u00famero com que o governo de Zapatero come\u00e7ou. Isso n\u00e3o \u00e9 mau, certamente. \u00c9 evidente que est\u00e3o a conseguir, se estes n\u00fameros s\u00e3o reais, e tamb\u00e9m \u00e9 evidente que a era Zapatero n\u00e3o ficar\u00e1 na hist\u00f3ria de Espanha como algo positivo para o pa\u00eds.  Mas tamb\u00e9m \u00e9 evidente que ainda h\u00e1 muito a fazer, e n\u00e3o parece que nesta legislatura, em que o partido no poder tem maioria absoluta, o consiga fazer. E quando chegar a pr\u00f3xima legislatura, em que j\u00e1 n\u00e3o haver\u00e1 maiorias definitivas, come\u00e7ar\u00e3o os problemas e as tens\u00f5es. E receio que venham a ser significativos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o sei como o conseguir\u00e3o e nem sequer sei se o conseguir\u00e3o. Mas tenho a certeza de que n\u00e3o o conseguir\u00e3o trabalhando \"pela negativa\": com impostos diretos e indirectos.  Parece que isto \u00e9 algo que se est\u00e1 a tornar claro com os resultados que se est\u00e3o a obter ao faz\u00ea-lo, e parece tamb\u00e9m que h\u00e1 uma vontade de mudar este modelo. Esperemos que, quando essa mudan\u00e7a ocorrer, ainda possamos estar activos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O desenvolvimento do talento, da criatividade e da vontade de criar empresas deve ser encorajado. A capacidade de correr riscos deve ser encorajada e valorizada. O desejo de tentar voar por conta pr\u00f3pria. E, em vez de criticar os empres\u00e1rios e os \"ricos\" cada vez que os resultados eleitorais correm mal, devemos incentiv\u00e1-los a vir para Espanha para trabalhar, criar empresas e criar riqueza, e tamb\u00e9m para se reformarem e gastarem entre n\u00f3s o que pouparam nos seus anos de atividade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas para isso \u00e9 preciso preocuparmo-nos com a economia real e n\u00e3o com a economia financeira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na economia financeira, o importante \u00e9 o curto prazo: que o pr\u00f3ximo leil\u00e3o de Letras seja efectuado e que possamos chegar mais ou menos seguros \u00e0s pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es. Na economia real, o importante \u00e9 o longo prazo. Que as decis\u00f5es que se tomam hoje justifiquem um futuro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 interessante ler a recente carta publicada pelo <a href=\"http:\/\/www.gmo.com\/websitecontent\/GMO_QtlyLetter_1Q2013.pdf\">Jeremy Grantham<\/a>\u00c9 o gestor e fundador da GMO, uma gestora de fundos americana que gere atualmente mais de 110 trili\u00f5es de d\u00f3lares. As suas opini\u00f5es sobre o que pensa que estamos a fazer ao mundo que nos rodeia e sobre a forma como estamos a gerir a nossa civiliza\u00e7\u00e3o s\u00e3o verdadeiramente chocantes. N\u00e3o \u00e9 a opini\u00e3o de qualquer um.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 algumas semanas almocei com um amigo que vejo regularmente. Fiquei muito impressionado com um coment\u00e1rio que ele fez enquanto fal\u00e1vamos sobre as suas estrat\u00e9gias de investimento. 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